" Frida e o salto ( A voz do vento ) "
"Preste atenção ao que eles dizem:
' Ter esperança é hipocrisia, a felicidade é uma mentira
E a mentira é salvação. '
Beba desse sangue imundo e você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo, somos os animais na jaula,
Mas você só quer algodão doce..."
( Legião Urbana - "Natália" )
"Preste atenção ao que eles dizem:
' Ter esperança é hipocrisia, a felicidade é uma mentira
E a mentira é salvação. '
Beba desse sangue imundo e você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo, somos os animais na jaula,
Mas você só quer algodão doce..."
( Legião Urbana - "Natália" )
Ouve-se a terrível voz do vento...
Ventava forte naquela noite e a terrível voz do vento incriminava todos os culpados, fazia com que eles admitissem sua culpa e escondessem o seus rostos entre as mãos. Os olhos de todos os oprimidos se arregalavam e choravam copiosamente, procuravam, em vão, a liberdade, a fuga de todo o pesadelo que viveram durante anos. Diante daquela voz do vento, todos se arrependiam dos seus pecados, ouvia-se gritos, uivos, grunhidos... como só do inferno pode se ouvir, gritos que vinham da garganta dos condenados e dos que condenaram injustamente.
Ouvia-se passos firmes pelos corredores vazios; todos sentiam-se espionados por olhos invisíveis, calafrios desde os pés até o último fio de cabelo... tudo por causa da terrível voz do vento.
Frida, assustada, olhava para todos os lados, todos os cantos de seu escuro camarim a procura de um vulto que tinha visto há muito pouco tempo. Perdera alguém muito querido há alguns meses e nunca tinha superado essa rasteira da vida. Sempre se lamentava e dizia que a vida foi injusta e cruel. Antes de perder o amor de sua vida ela era uma linda mulher, sempre feliz com a vida e satisfeita com tudo, pois tinha alguém para amar e sabia que era amada. Agora se tornou uma mulher amarga, solitária, insatisfeita. Sua pele é pálida como a neve, como o rosto descolorido dos leprosos. Pra tentar disfarçar isso ela se maquiava, olhava no espelho e não via nada mais do que a imagem de um cadáver feminino com pinceladas de seu próprio sangue em seu rosto. Era magra e tinha vergonha de seu próprio corpo na hora do banho, evitava olhar para o espelho para não ver os seios tristes, para não olhar para o seu corpo de boneca mal tratada. Foi se acabando com tempo mergulhando em vícios: bebia e fumava muito, tentava se matar aos poucos já que não tinha pressa pra morrer. Nasceu em uma cidade pobre e foi abandonada pelos pais ainda bebê, um casal que trabalhava em um circo na cidade a encontrou na mesma noite em um beco. Escapou da morte naquele dia, mas até hoje não sabe se isso foi azar ou sorte. Viveu sua vida toda no circo, foi educada, ajudava os seus pais e, com seus 16 anos, virou trapezista do circo. Com seus 20 anos de idade perdeu os seus pais num terrível atropelamento na rua, maldito motorista do ônibus que não viu o carro em sua frente, perdeu o controle e atropelou os seus pais. Muito jovem e triste, teve que assumir a responsabilidade do circo, pois era o sonho dos seus pais e não queria deixá-lo morrer juntos com eles.
Numa tarde, quando ela estava sentada perto das jaulas dos animais, um rapaz se aproximou e perguntou o porque de sua tristeza, ela nunca o tinha visto antes, mas parecia que já o conhecia há muito tempo. Ela começou a contar toda a sua hsitória e o rapaz fez o mesmo. Começaram a simpatizar um com o outro, trocaram olhares e finalmente o beijo aconteceu. Finalmente ela tinha um motivo pra ser feliz novamente e seguir a sua vida sem muita dor. Ficaram juntos por dois anos e planejaram se casar, então começaram a fazer os planos para o casamento, onde seria a festa, como seria o bolo, em que lugar realizariam a cerimônia. Tudo foi lindo por mais dois anos de sua vida ao lado do seu ser amado. Certa noite quando Frida estava indo para o circo, viu o amor de sua vida atravessando a rua com um sorriso ao lhe ver, trazia-lhe flores e dizia que a amava em voz baixa, mas não viu quando dois rapazes se aproximaram tentando assaltá-lo e, ao reagir, levou 4 tiros e morreu ali mesmo. Frida ficou paralizada, queria acordar daquele pesadelo real, não sabia o que fazer naquele momento... apenas assistia tudo em silêncio. Até que num tranco, foi puxada de volta para o seu corpo e desabou em lágrimas, pois sabia que ali, junto com seu amado, também foi embora a sua vida.
Depois do ocorrido, Frida não tinha mais esperanças, fazia seus números no circo mais por obrigação do que por amor ao ofício, vivia bebendo e fumava sem parar, acabava com o seu corpo aos poucos, pois sua alma se foi repentinamente. Fazia sempre a mesma coisa toda noite quando ia para o camarim, olhava com nojo para a sua cara no espelho, nem ela se reconhecia, sabia que nem mesmo era mulher, era apenas um pedaço de carne com seios vazios e dilatados de dor... sem nenhum coração para preenchê-los. Um dos organizadores do evento no circo disse que sua hora estava chegando, que os espectadores estavam ansiosos para vê-la e pediu para que ela se aprontasse logo. Assim que ela entrou no picadeiro sentiu que tudo estava bem diferente de tudo o que ela viveu antes, via que os sorrisos dos espectadores estavam diferentes, que todos a olhavam de uma forma estranha com aquele olhar de pena e compaixão que sempre odiou. Entre aplausos e sorrisos, Frida subiu no trapézio e foi subindo mais, bem mais alto do que todos acostumavam vê-la em suas apresentações, e foi quando ficou acima das luzes do picadeiro. Ela via todos lá embaixo como pequenos pontos insignificantes e desprezava toda aquela alegria e alvorosso. Seus pés, besuntados de cera, encerravam a união que tinha entre o solo e o céu. De longe, suas vestes brancas podiam confundí-la com um anjo, mas ela não aceitava esse título para não diminuir o perigo de seus saltos. Observando todos lá embaixo, ela queria achar um lugar vazio, onde não teria ninguém para atrapalhar seu último salto. Desligou-se do mundo... sentia o seu coração bater mais devagar, sua mente estava vazia, seus olhos tristes olhavam fixos para o nada e, de repente, viu toda a sua vida passar diante de seus olhos e viu todas as perdas significativas que teve em sua vida, sabia que não tinha mais nenhum motivo para permanecer ali.
Quando voltou para o seu corpo, sentiu-se sufocada por estar nesse mundo e quanto mais ela tentava esquecer toda essa loucura, mais louca ela ficava. Foi quando todos menos esperavam, Frida lançou-se de encontro ao solo como um anjo decaído que despenca dos céus, ela ouvia os gritos desesperados de todos e sentiu-se aliviada porque ali, fazendo o que sempre fez, estava pra acabar toda essa loucura que ela chamava irônicamente de vida. Quanto mais se aproximava do solo, mais ela sorria, foi se aproximando mais e mais e... até que não viu e nem sentiu mais nada. Fim da loucura.
Ventava forte naquela noite e Frida estava morta aos olhos dos espectadores que, assustados, não falavam nada. Um silêncio mortal tomou conta do lugar, todos ficaram calados, a música parou.
Nada ouvia-se naquele lugar, a não ser a terrível voz do vento.
Noossa...texto lindo e tristee!! ficou perfeiito msm!!mtu boomm...parabens..Bjos
ResponderExcluir